Desencaixe
Caiu a noite
Naquele setembro morno
de 1992
Ela correu
em direção a um velho barzinho conhecido
Lá interpretou o que realmente queria ser
Tudo o que ouvira falar de Seattle
Calça rasgada, camiseta preta
e a convicção de ter encontrado um novo mundo
Toda vontade de viver a deixava cada vez mais só
excluída por ter pisado em um lugar que
infelizmente não a pertencia
Aquele dia foi um borrão no calendário
E uma passagem sórdida
Que a engoliu
como um inseto
Seus amigos a seguiram
Depois a deixaram
Ela sonhava com uma banda de rock
Mas ninguém tinha o mesmo entusiasmo
O detalhe de ter nascido no lugar errado
Condenava-a
Depois de Ultramega OK, Facelift, Ten, Nevermind
Suspeitou de um sentido na vida
Então amanheceu
E com o sol veio o arrependimento
Tanto amor pra nada
Voltou aos cadernos e vestiu outras roupas
Assim como tantos outros
Em tantas primaveras de 1992
R. Miranda
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